Guia para viajar pelas florestas dos sentidos

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O que é o caminho? anúncio de partida escrito em folhas que o pó desenhou.

O que é a árvore? lagoa verde cujas ondas são o vento.

O que é o vento?  alma que não quer habitar o corpo.

O que é a morte? carro que leva do útero da mulher ao útero da terra.

O que é a lágrima? guerra perdida pelo corpo.

O que é o desespero? descrição da vida na língua da morte.

O que é o horizonte? espaço que se move sem parar.

O que é a decepção? espinho que sangra nas lembranças.

O que é a coincidência? fruto na árvore do vento caindo entre as mãos sem se saber.

O que é o não sentido? doença que mais se propaga.

O que é o medo? paralisia que avança.

O que é a memória? casa habitada só por coisas ausentes.

O que é a poesia? navios que navegam, sem portos.

O que é a metáfora? asa aliviando no peito das palavras.

O que é o fracasso? musgo boiando no lago da vida.

O que é a surpresa? pássaro que escapou da gaiola da realidade.

O que é a história? cego a tocar tambor.

O que é a mocidade? chegada barulhenta.

O que é a velhice? partida silenciosa.

O que é a sorte? dado na mão do tempo.

O que é a linha reta? soma de linhas tortas invisíveis.

O que é o umbigo? meio caminho entre dois paraísos.

O que é o tempo? veste que usamos sem poder tirar.

O que é a melancolia? anoitecer no espaço do corpo.

O que é o sentido? início do não sentido e seu fim.

(POEMAS, de ADONIS,  Ali Ahmad Said)

Noturno

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O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas
Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania vem mais forte.

Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou

Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
no fogo ingênuo da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança
Nessa estrada
Só quem pode me seguir sou eu
Sou eu, sou eu, sou eu

(Graco / Caio Sílvio)

Passagens literárias

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“Não há nada como refazer a realidade. (…) O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar. E não importa sobre o quê.

É claro que, tal como ocorre quando qualquer pessoa morre, embora muitos sofram, outros permanecem indiferentes, ou se sentem aliviados, ou então, por motivos bons ou maus, ficam na verdade satisfeitos.

É justamente o que há de normal nos funerais o que os torna mais dolorosos: mais um registro da realidade da morte que avassala tudo.É porque a intensidade mais perturbadora da vida é a morte. É porque a morte é injusta. Para quem provou a vida, a morte não parece nem sequer natural.

(No quarto, ela sentou-se a seu lado e segurou-lhe a mão, pensando: quando a gente é jovem, é o exterior do corpo que é importante, a aparência externa. Quando envelhecemos, é o que está dentro que importa, e as pessoas não ligam mais para a aparência)

(in Homem Comum, de Philip Roth)

Eu, pecador, me confesso

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Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
De virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
E o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
Do tal Céu que Deus governa;
De ser um monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

(Miguel Torga)

Risos e Melancolia

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“No princípio, os chamados pecados capitais não eram sete, mas oito, e a melancolia estava entre eles. No final do século VI o Papa Gregório I reduziu os oito pecados capitais para sete, e a melancolia foi perdoada. Os sábios da Igreja Católica consideravam que a melancolia insistente, obstinada, aquilo a que hoje chamaríamos um estado depressivo crônico, ofendia o senhor Deus, pois o indivíduo melancólico perde toda a alegria, isola-se, revolta-se contra os outros. Eventualmente, suicida-se, e ao fazer isso desdenha o milagre quotidiano da vida. Resumindo: despreza a obra de Deus. Nem todos estavam de acordo.

Argumentavam outros teólogos que a melancolia não pode ser um pecado, pois não consiste numa ação concreta e sim num estado do espírito. E como se alguém nascesse com uma deformidade que o impedisse de se maravilhar e alegrar com a beleza do mundo. Culpá-lo disso seria o mesmo que culpar um coxo por não conseguir correr rapidamente. A discussão durou séculos.

Compreendo os doutores da Igreja que defendiam a primeira tese. A tristeza enquanto modo de vida sempre me pareceu um pecado grave. O pessimismo, esse filho bastardo da melancolia, é frequentemente uma espécie de adorno arrogante que alguns pensadores colocam na lapela para parecerem inteligentes. O pessimismo é, na verdade, uma facilidade do espírito, uma preguiça do pensamento, um luxo dos povos felizes, como escrevi algures. Difícil é ser otimista. Urgente é ser otimista.

Entre nós, angolanos, nem há – é bem verdade – alternativa ao otimismo. Acordamos, lemos os jornais e rimos daquilo que faria chorar um sueco ou um holandês. Rimos porque, apesar das notícias dos jornais, estamos vivos. Continuamos vivos. Rimos porque respiramos. Rimos porque escutamos, no quarto ao lado, as gargalhadas dos nossos filhos. Rimos porque sabemos dançar. Rimos porque podemos dançar. Rimos porque a esperança se alimenta do riso. Rimos porque o riso é subversivo. Rimos porque o riso é revolucionário.
Rir é resistir.
«O riso», escreveu Eça de Queirós, «é a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em tomo de uma instituição e a instituição alui-se.»
«Uma boa gargalhada», acrescentou Nabokov, «é o melhor dos pesticidas.»

(…) As notícias não são boas, mas a nossa alma é maior do que o desânimo. Então rimos. Rimos de quem nos quer em silêncio. Rimos de quem abandonou a própria arte e se vendeu, e gostaria que todos estivessem à venda. Rimos de quem nos quer paralisar de horror. O riso é a arma com que enfrentamos a maldade e a estupidez. A melancolia é uma capitulação. A melancolia é uma cegueira que nos impede de ver o óbvio. O óbvio é a vida que fervilha em redor. O óbvio são as possibilidades, mesmo quando tudo em redor parece impossível. Resistir é quase um vício.

José Eduardo Agualusa, ‘O Paraíso e Outros Infernos’


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