O que perdemos

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Do livro “O que perdemos”, de Zinzi Clemmons, página 112:

“A minha mãe está morta. Mas ainda a vejo. Mas ainda a sinto. Ainda consigo ouvir-lhe a voz até nesse preciso momento em que vos falo. Mas ela está morta. Quando olho para fotografias dela na praia, consigo sentir o sol sobre sua pele. Consigo ouvir como me falava. Mas ela partiu. Consigo sonhá-la e ouvir-lhe o choro. Conta-me o que aconteceu naquele dia e chora comigo. Pede que eu não tenha medo. Mas está morta. Uma parte dela permanece viva em mim. Mas ela partiu. Viverá eternamente no Céu. Mas não está mais na terra. Partes dela continuarão nas árvores, nos riachos e nos pássaros de amanhã. Ela é a água, as plantas e poeiras que vejo rodopiar nas colunas de luz. Se olhar demoradamente uma flor, consigo ver o rosto dela. Mas ela não está aqui”.

 

Uma passagem

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(…) a cena era limpa. O mar, algumas ondas, dois barcos e um vento fresco. Sem impedimentos, o ar chegava e saia de meus pulmões por meio de movimentos leves. Minhas roupas não me incomodavam com os sopros marítimos. Calma, me encontrava ali, naquela ponta de praia, esvaziada de dores e ocupada por uma sensação maravilhosa de bem-estar. Os assobios ecoavam fininho e havia um lençol cinza sobre o céu que, tão longo evoluíam-se as horas, era substituído sem consulta por um amarelo solar avisando delicadamente a partida do dia. Que cena! Eu inteira depois de muito tempo despedaçada (…)

(Adriana Araf)

Saudade é dor estranha

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Saudade é dor estranha, permanente. Nunca vai. Está na alma e não no corpo, muito embora o corpo a traduza. Saudosos, ficamos emocionais demais, os olhos marejam, perdemos o viço do caminhar atento. Saudade bate, agride, arromba nossa integridade física sem sangrar. Saudade não vai embora. É uma companhia invisível, que insiste em nos dizer coisas. Saudade é um adeus sussurrado que o coração não escuta.

(Adriana Araf)

Quem não ousa acender a própria luz, apaga-se

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Um fósforo disse à vela “Prepare-se! Vou acendê-la com meu fogo”. A vela se assustou e pediu que ele assim não fizesse. “Se você me acender eu vou queimar e será o meu fim.” “Ora – replicou o fósforo – mas as velas são para ser acesas. Quer permanecer fria e morta?” A vela respondeu que se fosse acesa não só se acabaria como arderia também e que isso a assustava muito.

O fósforo então disse “Veja bem, o que vale mais a pena: uma existência longa, mas estagnada, ou uma vida que produz luz, que ilumina os outros e que traz calor? Você se acabará de qualquer jeito. Se não for acesa demorará em acabar, decerto, mas será uma vida sem valor. Você nasceu para ser acesa. Assim como eu nasci para acender você. E quando você arder, o seu sofrimento e dor serão transformados em luzes que espantarão a escuridão e lhe trará calor que deixará o frio longe. Contudo, a decisão é sua.” A vela, ao compreender o que o fósforo dizia, abriu-se em um sorriso e falou: “Me acenda. Estou preparada e com muito desejo de virar luz”.

Esta simples historieta nos mostra como podemos viver essa vida. Muitas pessoas tentam tanto se proteger, evitando viver, evitando reconhecer as emoções e lidar com elas, que ficam apagadas. Já ouvi gente dizer que prefere não se apaixonar por alguém que desperta os melhores sentimentos porque teme perder o ser amado em algum momento. É verdade que quem se abre à dimensão da paixão pode perder, dar com a cara na parede, se decepcionar. A vida não tem garantia alguma. Abrir-se a alguém gera medo sobre os desdobramentos que podem advir, mas ao mesmo tempo oferece uma experiência única em significados.

Tem gente que teme dar um passo maior em algum momento na vida e fica estagnado, quando poderia ir além. Comprar uma casa, por exemplo, é algo grandioso, que requer planejamento e pés na realidade. Não é algo que pode ser feito levianamente, mas chega uma hora que, quando a possibilidade se faz presente, precisa-se que se dê um grande passo, afinal, não se atravessa de um lado para o outro de um penhasco com passinhos. Se a pessoa já está preparada tem que ousar pular. Claro, tudo dentro dos limites e da realidade. Haverá dúvidas, com certeza, mas se nada é ousado nada se vive.

Até mesmo no processo da análise é assim que acontece. Quando um analisando procura análise tem medo do que vai encontrar, com o que vai se deparar, medo de se queimar com o que pode descobrir sobre si próprio. Porém, se ousar ir além, suportar os seus próprios conteúdos e transformá-los em material para crescimento, o analisando torna-se quem realmente é. Desabrocha verdadeiramente para a vida.

Não se trata apenas de adquirir bens ou de ter um relacionamento ou de fazer análise, mas de como vivemos, de como nos “acendemos” na vida em todos os momentos. Em qualquer coisa que nos colocamos podemos viver gerando luz com nossas vidas (e vamos nos gastar) ou podemos ficar guardando sempre uma escuridão, sem cor e nem calor. Muita gente fica tão defendida, tão “sem arder” nas emoções desta vida, que ficam como mortas. Estão tão apegadas a uma certa pseudo-segurança que não se permitem produzir a luz que possuem dentro de si. São velas que jamais se acendem.

Dr. Sylvio do Amaral Schreiner, psicanalista.

in Folha de Londrina, 17 de Janeiro de 2019

Doces palavras

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Não foi nada. Está tudo bem. Já passou. Foi melhor assim. Sim, eu acredito. Tinha que acontecer. O passado ficou para trás. O presente é o que interessa. O futuro é preocupação tola. Eu fiz o meu melhor. Eu fiz a minha parte. Eu não tive culpa. Foi perdoado. Superei. Tenho paciência. Cortado o pior. O tempo cuida. O melhor está reservado. Chegou a hora. Abriu espaço. São tantas as frases ditas pelas nossas bocas para que nossos ouvidos ouçam e nosso coração se convença do oposto vivido que, se ecoadas, nos trazem a doce ilusão de estarmos em uma realidade melhor daquela experimentada. Elas, mesmo em pronúncia murcha, evitam saldos ruinosos à alma e, na melhor das hipóteses, nos impulsionam para novos rumos.”

Adriana Araf


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